
Ao mesmo tempo em que ocupava um cargo central no gabinete do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o advogado Thiago Rodrigues de Faria recebeu R$ 105 mil de empresas de Fernando Alves Vieira. O empresário é sócio em diferentes firmas de Natália e Henrique Vorcaro, irmã e pai de Daniel Vorcaro. Ele também foi acusado pela empresa liquidante do Banco Master de ser “laranja” da família Vorcaro — acusação que Vieira nega.
O Núcleo Investigativo ICL Notícias obteve, com exclusividade, 18 notas fiscais emitidas pelo advogado de Nikolas Ferreira para as empresas de Vieira entre setembro de 2024 e dezembro de 2025, para pagamentos direcionados ao assessor e advogado de Nikolas.
Faria foi nomeado para o gabinete de Nikolas Ferreira em 9 de março de 2023. Como coordenador da assessoria jurídica, recebia salário de R$ 17,2 mil, informa a Câmara dos Deputados. Já havia sido assessor de Nikolas na Câmara Municipal de Belo Horizonte.
Pouco mais de um ano depois que Nikolas se tornou deputado federal, em 19 de agosto de 2024, o assessor abriu a “Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia”, com sede em Nova Lima, na região metropolitana de Belo Horizonte (MG). Na sequência, vinte e dois dias depois, ele emitiu a primeira nota fiscal para a Eagle & Shark, empresa de Fernando Vieira. Faria seguiu listado como assessor de Nikolas até 30 de março de 2026. Ele continua atuando como advogado do deputado e é o mesmo assessor por quem Nikolas pediu ajuda a Vorcaro em um áudio revelado pelo ICL em setembro.
A Eagle & Shark Participações, Negócios e Serviços, administrada por Vieira e por André Beraldo de Morais, pagou R$ 50.340 em 17 notas mensais. O valor era de R$ 2.824 até março de 2025 e passou a R$ 3.036 a partir de então.
Em 17 de dezembro de 2025, outra empresa em que Fernando Vieira atua como sócio-administrador único pagou de uma só vez R$ 55 mil ao assessor de Nikolas Ferreira. Trata-se da Health Enterprises Participações e Serviços, conhecida como 2V Life. O valor supera tudo o que a Eagle & Shark havia pago em 15 meses. A nota foi emitida por Faria 29 dias depois de o Banco Central decretar a liquidação do Master e de Daniel Vorcaro ser preso.

Nikolas Ferreira pediu ajuda a Daniel Vorcaro
O ICL Notícias revelou em setembro um áudio enviado por Nikolas para Daniel Vorcaro em 30 de março de 2025. Nele, o deputado se refere a Thiago como “meu advogado” e “irmão meu”, e pede ajuda a Daniel Vorcaro. No áudio, Nikolas diz: “Ei Dani, tudo bom? Como você está? Como estão as coisas aí? Desculpa te incomodar num domingo aí, é jogo rápido, também não quero tomar muito seu tempo. É o seguinte, meu amigo, meu advogado, enfim, irmão meu aqui, comentou comigo e falou daqui do seu nome. Eu falei: ‘não conheço o Dani, enfim, não tenho a proximidade assim, até mesmo a que eu queria ter, enfim, de conversar e trocar ideia, mas eu o conheço.’ Ele falou: ‘cara, tô com um ativo minerário lá, inclusive já passou pela ficha técnica, o pessoal técnico dele, enfim, tá pendente lá, tem algumas pessoas que sabem disso lá na empresa.’ E eu falei: ‘não, ué, eu posso dar um toque nele’. Então assim, não sei nem do que se trata, mas enfim é como é uma pessoa, enfim, que eu confio totalmente, tô passando aí pra você, pra se for do teu interesse, passar o contato dele aqui pra vocês tocarem isso, beleza? No mais, qualquer coisa tô aqui à disposição”
Nikolas envia o áudio e Vorcaro responde minutos depois com um áudio de visualização única. Na sequência, Nikolas agradece e envia o contato de Thiago Faria. Vorcaro então responde: “Amém irmão. Estamos na guerra juntos”. Nikolas escreve que vai “dar banho na pequena agora” e completa na sequência: “pra amanhã voltar pra guerra”. A conversa termina com Vorcaro dizendo ao deputado para “Thiago me chamar”.
As conexões do assessor de Nikolas com os Vorcaro
Ambas as empresas de Vieira possuem conexões com os Vorcaro. Na formação societária da Eagle & Shark, por exemplo, é possível constatar que Fernando Vieira, administrador e representante legal, tem como um dos sócios a Adaptar Gestão Participações. Essa companhia, por sua vez, é associada à Santa Lúcia Empreendimentos Imobiliários, que tem como sócia Natália Vorcaro – irmã do banqueiro Daniel Vorcaro e esposa de Fabiano Zettel.
As conexões não param por aí. A Santa Lúcia Empreendimentos Imobiliários também está conectada à Multimax Participações, empresa presidida pela mesma Natália Vorcaro e que tem como sócio e diretor Henrique Vorcaro, pai do banqueiro que também foi preso pelo escândalo do Banco Master.
A 2V Life se conecta indiretamente com a Igreja Batista da Lagoinha, liderada por André Valadão e que teve Fabiano Zettel como um de seus pastores. A 2V Life é sócia da Ouro Preto Entreprises Participações, administrada por Thiago Assumpção Henriques – também administrador da Igreja de Valadão.
Documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal (STF) mostram que Zettel cobrou, em 2025, repasses de Daniel para custear a construção de um templo da igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte. Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que familiares de Vorcaro repassaram mais de R$2 milhões para a unidade da Lagoinha, após a cobrança do cunhado.
O liquidante do Banco Master afirma, em ação civil nos Estados Unidos, que Vieira atuou como “laranja” de Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel.
Henrique foi preso em maio de 2026. Vieira nega a acusação, que não teve novos desdobramentos desde junho. Ele não está entre os indiciados no primeiro inquérito da Polícia Federal sobre o caso Master, concluído em agosto. Em janeiro de 2026, foi citado em decisão do ministro Dias Toffoli como procurador de Valdenice Pantaleão de Souza, apontada como “laranja” da Clínica Mais Médicos.
Operação Rejeito
Thiago Rodrigues de Faria teve seu nome exposto por envolvimento com empresas e investigados que foram presos na Operação Rejeito, deflagrada em setembro de 2025, alguns meses depois da troca de mensagens.
A PF prendeu 22 pessoas preventivamente em meio a uma investigação de um esquema criminoso de extração ilegal de minério de ferro na Serra do Curral, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Segundo uma reportagem do jornal O Estado de Minas, Thiago Rodrigues de Faria atuou como intermediário, por meio de um contrato de confiabilidade, de uma negociação envolvendo uma lavra de minério e empresas investigadas pela PF nessa operação. Uma delas é a Gmais Ambiental. Pelo trabalho do assessor de Nikolas, os verdadeiros donos não teriam os nomes publicizados.
De acordo com os investigadores, a Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia tinha um contrato, assinado em janeiro de 2025 com a Gmais, e a empresa receberia 25% do lucro total, estimado entre de US$ 30 e US$ 45 milhões, caso a autorização para que uma área pudesse voltar a minerar e uma lavra fosse vendida.
No inquérito da PF, está descrito: “chamaram a atenção os valores prováveis da negociação sobre os quais os apresentantes seriam remunerados. O valor inicial era de US$ 30.000.000,00 podendo ultrapassar os US$ 45M, valor que geraria 20% de comissão aos parceiros Gmais, Estabil escritório contábil e Thiago Rodrigues advocacia”, diz um trecho do inquérito.
Esse contrato entre a Gmais e a empresa do assessor de Nikolas também tinha como sócia a mineração Topázio Imperial, que detém os direitos minerários da lavra onde está localizada uma das barragens de maior risco de Minas Gerais, a barragem Água Fria, considerada um dos sete barramentos com maior risco de rompimento no Brasil. Na época, estava sem operação por ação do MPF.
Ainda de acordo com a PF, o grupo queria vender a lavra da Topázio para exploração. No entanto, era necessário liberar a empresa, detentora dos direitos minerários de lavra em Ouro Preto, no Distrito de Rodrigo Silva.
Resposta do advogado de Nikolas Ferreira
Thiago Faria informou ao ICL Notícias que recebeu dinheiro de Fernando Alves Vieira e que, apesar de ter sido o assessor do Nikolas Ferreira, “não há impedimento legal para que eu exerça a advocacia”. “Eu advogo para o senhor Fernando Alves Vieira, isso é verdade”, afirmou. Ele disse que Nikolas não sabia que Vieira era seu cliente. “Não são todas que ele sabe. Eu não tenho como ficar atualizando ele de tudo. Tá? Eu sou advogado criminalista e exerço a minha função”, disse.
Ele disse que ele e o deputado não pediram ao Daniel Vorcaro para destravar ativo minerário. “Nós não sabíamos que Daniel Vorcaro era esse sujeito enrolado nesse tanto de confusão e eu estava vendendo um ativo para vários empresários, que é uma prática regular de advocacia que o estatuto da Ordem dos Advogados do Brasil me permite, e em determinado momento eu comentei com o Nikolas e ele mandou um áudio para o Daniel que era um cara que ele não sabia que tinha problema”, disse o assessor de Nikolas. “Em relação ao Fernando e Vorcaro, se ele era laranja e tudo, eu não tenho essa informação”, finalizou.
O empresário Fernando Alves Vieira foi procurado por intermédio das suas duas empresas que aparecem citadas nestas reportagem (Eagle & Shark Participações e 2V Life), mas não retornou os questionamentos feitos. O espaço segue aberto para manifestação.
fonte: ICL

