
A fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos abriu caminho para Michelle Bolsonaro ampliar sua influência dentro do PL e disputar a liderança política do bolsonarismo. Nesta terça-feira (27), em meio à irritação de dirigentes e parlamentares com a saída do candidato derrotado à Presidência, Valdemar Costa Neto recebeu a ex-primeira-dama para discutir o futuro do partido.
“Recebi hoje a senadora eleita Michelle Bolsonaro para uma conversa sobre o futuro do nosso partido e os desafios que temos pela frente”, escreveu Valdemar em uma publicação acompanhada de uma fotografia dos dois. O presidente do PL destacou a necessidade de união e diálogo, mas não fez qualquer referência a Flávio, que havia prometido permanecer no Brasil para liderar a oposição ao governo Lula.
O encontro ocorre em um momento de desgaste da liderança do senador. Sua saída do país, sem comunicação prévia à direção partidária, provocou incômodo entre parlamentares que consideram a decisão prejudicial à reorganização da direita após a derrota eleitoral.
O desconforto ficou evidente na entrevista coletiva concedida pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, na porta da sede do PL, em Brasília, no fim da tarde desta terça-feira.
“Nós estamos surpresos, porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição”, declarou Marinho.
Segundo ele, Flávio enviou uma mensagem por volta das 8h informando que precisava de um tempo e voltaria a conversar com os aliados. Desde então, o coordenador da campanha afirmou não ter recebido novas informações sobre seu paradeiro. Marinho criticou as medidas judiciais contra o senador e disse compreender uma eventual saída do Brasil, mas evitou endossar a decisão. “Eu disse que compreendo. Eu não disse que concordo”, afirmou.
Ala do PL quer reduzir dependência da família Bolsonaro
A crise fortalece uma discussão que já existia dentro do PL. Uma ala da legenda defende virar a página da dependência política de Jair Bolsonaro e de seus filhos, especialmente depois da condenação do ex-presidente a 27 anos e três meses de prisão pela tentativa de golpe de Estado.
Para esse grupo, Michelle representa uma possibilidade de reorganização da direita sem romper com a base eleitoral bolsonarista. Embora seja esposa de Jair Bolsonaro, a ex-primeira-dama construiu uma rede própria de apoio, principalmente entre lideranças femininas e evangélicas, e já demonstrou disposição para contrariar decisões políticas dos enteados.
O próprio Valdemar foi um dos dirigentes que mais estimularam o protagonismo eleitoral de Michelle. Antes da definição da candidatura de Flávio, chegou a apontá-la como uma alternativa competitiva para enfrentar Lula nas eleições presidenciais de 2026, apoiando-se em pesquisas internas do partido. Depois da escolha do senador por Jair Bolsonaro, passou a defender publicamente a candidatura de Flávio.
A proximidade entre Valdemar e Michelle, portanto, antecede a crise desta terça-feira. O dirigente também incentivou a ex-primeira-dama a disputar o Senado, mesmo quando ela cogitou abandonar a candidatura após desentendimentos com o enteado.
Eleita pelo Distrito Federal com 938.496 votos, Michelle assumirá em fevereiro de 2027 seu primeiro mandato parlamentar, com duração de oito anos. Flávio, por sua vez, deixará o Congresso em janeiro, após a derrota presidencial.
A ex-primeira-dama também carrega a experiência de ter comandado o PL Mulher entre 2023 e junho de 2026, período em que ampliou sua presença nacional e ajudou a organizar uma rede de mobilização conservadora. No Senado, terá como aliadas Bia Kicis (PL-DF) e Damares Alves (Republicanos-DF).
A relação de Michelle com os filhos do ex-presidente, especialmente Flávio, foi marcada por divergências públicas durante a campanha. Sua atuação política independente já havia provocado disputas sobre os rumos do partido e sobre quem teria legitimidade para representar o bolsonarismo.
A reunião com Valdemar não significa uma transferência formal de liderança, tampouco elimina as resistências internas ao nome de Michelle. Mas a combinação entre a crise provocada pela fuga, o mandato conquistado nas urnas e a disposição de parte da legenda de diminuir a influência direta dos filhos de Jair Bolsonaro cria um novo espaço para a ex-primeira-dama na reorganização do PL.
Fonte: icl

