
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável por fiscalizar o mercado de capitais, identificou indícios de manipulação de mercado e uso de operações simuladas em estruturas ligadas a empresas e fundos associados ao Caso Master desde 2017. Os indícios constam em processos administrativos sancionadores abertos pelo regulador.
Ao todo, a CVM identificou 314 processos instaurados entre 2017 e 2025 relacionados ao grupo Master e a entidades conexas. Desses, 14 são processos administrativos sancionadores, etapa em que há formulação de acusação formal pelo regulador.
Os documentos analisados pelo Metrópoles revelam que as investigações não se limitam a Daniel Vorcaro, dono do Master, e apontam a recorrência de nomes e padrão de conduta que atravessa quase uma década, conectando figuras centrais do mercado financeiro a práticas consideradas graves pela CVM.
Benjamim Botelho de Almeida é um dos nomes mais recorrentes nos processos. Segundo a Polícia Federal (PF), ele atuaria como sócio oculto e operador financeiro de Vorcaro nos Estados Unidos. Botelho foi alvo de nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada em janeiro, que investiga esquema bilionário de fraudes financeiras e gestão fraudulenta envolvendo o Master.
Os registros mostram ainda que o Grupo Reag tornou-se a presença mais frequente nos processos relacionados ao ecossistema do Master nos últimos dois anos, em um rastro de apurações que antecedeu sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central.
Papel da CVM e o que mostram os processos
- O que faz a CVM: a Comissão de Valores Mobiliários é o órgão responsável por regular e fiscalizar o mercado de capitais no Brasil, incluindo companhias abertas, fundos de investimento e intermediários financeiros.
- O que são processos administrativos sancionadores: são procedimentos em que a CVM já identificou indícios mais robustos de irregularidades e formula uma acusação formal contra os investigados, podendo resultar em multas, inabilitação ou outras penalidades.
- Diferença para outras apurações: nem todo processo aberto pela CVM resulta em acusação. Os sancionadores são a etapa mais avançada, dentro de um universo mais amplo de investigações e análises preliminares.
- Volume de investigações no caso Master: levantamento interno da CVM analisou 314 processos relacionados ao grupo Master e entidades conexas desde 2017, dos quais 14 evoluíram para fase sancionadora.
- Alertas ignorados ao longo do tempo: parte relevante dos processos teve origem em denúncias externas e comunicações de órgãos como Banco Central, Receita Federal e Ministério Público, indicando que sinais de risco circularam entre instituições por anos.
Irregularidades em fundos e debêntures
Nos processos nº 19957.009798/2019-01 e nº 19957.007976/2020-94, a CVM concentra o maior número de acusados, incluindo Botelho, Vorcaro e a Sefer Investimentos. O regulador apura irregularidades na emissão de debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e cotas de fundos fechados. Há indícios de que essas estruturas teriam sido utilizadas para beneficiar o grupo em prejuízo de investidores.
A Sefer, alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, é investigada por supostamente integrar esquemas de repasse de recursos para empresas ligadas à família de Vorcaro. Entre as beneficiárias, estaria a Milo Investimentos, que, segundo dados da Receita Federal, é controlada por Natália Vorcaro e Henrique Vorcaro, irmã e pai de Daniel Vorcaro.
Fonte: Metrópoles

