
A dupla de empresários acusada de operar um esquema de lavagem de dinheiro que atendia ao PCC afirmou que o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, é dono de jatinhos operados pela Táxi Aéreo Piracicaba (TAP). A informação faz parte do material entregue às autoridades por Roberto Augusto Leme, o “Beto Louco”, e Mohamed Hussein Mourad, o “Primo”, na proposta de delação premiada enviada à Procuradoria-Geral da República (PGR) e ao Ministério Público de São Paulo (MP-SP).
Eles são apontados como líderes de uma rede de lavagem de dinheiro por meio de fraudes fiscais no setor de combustíveis e uso de fundos de investimentos da Faria Lima, deflagrada nas operações Carbono Oculto, Tank e Quasar. Ambos são considerados foragidos pela Justiça.
Conforme apurou o ICL Notícias, Beto Louco e Primo informaram que Rueda se interessou pelo ramo de negócios, após viajar diversas vezes nos jatinhos que pertenciam à dupla. O objetivo, além de gerar recursos, era o de dar carona para políticos, empresários e magistrados, como estratégia de tráfico de influência.
A Polícia Federal (PF), no âmbito da Operação Tank, também investiga o uso da empresa de táxi aéreo no esquema de lavagem de dinheiro da dupla, conforme documentos aos quais a reportagem teve acesso.
Por meio de nota, Rueda disse desconhecer “qualquer proposta de delação com esse conteúdo”.
“E afirmo, de forma categórica, que essa informação a meu respeito é falsa. Nunca fui proprietário, direta ou indiretamente, de qualquer aeronave. Sigo absolutamente tranquilo e confiante quanto a qualquer apuração dos fatos”, acrescentou.
Também em nota, a TAP informa que não procede essa informação: “A empresa realiza sua operação de forma totalmente regular, tendo inclusive se colocado à disposição perante as autoridades, que não a consideram investigada nos procedimentos existentes”.
Os advogados de Beto Louco e Primo não quiseram se pronunciar.
A ligação de Rueda com Beto Louco, Primo e a TAP foi revelada em entrevista exclusiva ao ICL Notícias, em setembro do ano passado, pelo ex-piloto da empresa, Mauro Mattosinho. Segundo ele, – que transportava regularmente os empresários do ramo de combustíveis – Rueda seria o verdadeiro proprietário de quatro dos dez jatos executivos operados pela Táxi Aéreo Piracicaba.
Mattosinho contou que Rueda era citado por seu então chefe, Epaminondas Madeira, como o líder de um grupo que “tinha muito dinheiro que precisava gastar” na compra de aeronaves, avaliadas em dezenas de milhões de dólares.
“Havia um clima de ‘boom’ de crescimento na empresa. E isso foi justificado como sendo um grupo muito forte, encabeçado pelo Rueda, que vinha com muito dinheiro que precisava gastar. Então, a aquisição de várias aeronaves foi financiada”, lembrou o piloto, que também prestou depoimento à PF.
Outras conexões entre Rueda, Beto Louco e Primo
O ICL Notícias revelou também, em outubro do ano passado, que Rueda atuou como intermediário em uma negociação para a venda de uma empresa de gás de cozinha ligada a Beto Louco e Primo, de acordo com três líderes do mercado que pediram anonimato por medo de represálias.
De acordo com reportagem da Revista Piauí, publicada nesta quarta-feira (11/3), Rueda trocou mensagens com Beto Louco e Primo, entre outubro de 2023 e maio de 2024.
As conversas, anexadas à proposta de delação premiada, segundo a revista, tratavam de pagamentos e partilha de dinheiro, relativos à importação de combustíveis pelo Amapá. Ainda de acordo com a revista, apenas entre outubro e dezembro de 2023, as mensagens indicam a movimentação de R$ 5 milhões.
A PGR recusou a proposta de delação de Beto Louco e Primo. Os dois investigados continuam a negociar com o MP paulista e de outros estados.
TAP fazia parte do esquema de lavagem de dinheiro, diz PF
A empresa TAP teria sido usada como parte do esquema de lavagem de dinheiro que beneficiava Beto Louco, de acordo com as informações que constam no pedido de prisão preventiva formulado pelo Ministério Público Federal, no âmbito da Operação Tank.
A investigação é uma das três que estouraram no segundo semestre do ano passado e têm o objetivo de desbaratar uma rede criminosa criada em associação com fundos da Faria Lima, maior centro financeiro do país. As outras duas são Carbono Oculto, tocada pelo Ministério Público paulista, e Quasar, pela Polícia Federal.
O foco da Operação Tank é o esquema de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro orquestrado por Beto Louco e seu parceiro de negócios, o Primo, por meio da criação de dezenas de empresas em nome de laranjas em Curitiba e em outras cidades paranaenses.
De acordo com o MPF, no documento acessado pelo ICL Notícias, “apurou-se a existência de uma rede de pessoas físicas e jurídicas que operacionalizam um complexo esquema de lavagem de dinheiro, movimentando cifras multimilionárias através de diversas contas bancárias e transações com características típicas de ocultação/dissimulação da procedência ilícita dos valores, além da aquisição de bens, ausência de emissão de notas fiscais, estruturação contábil e outras diversas operações financeiras que denotam claramente se tratar de dinheiro oriundo não apenas do tráfico internacional de drogas e do crime organizado”.
Os procuradores da República afirmam que Beto Louco “é um dos principais beneficiários do esquema, recebendo vastas quantias.”
Ainda de acordo com a investigação, “esses fundos ilícitos eram canalizados para diversas empresas “laranjas” que serviam como receptáculos”. Entre as empresas citadas está a TAP.
A investigação da PF mostra registros migratórios que comprovam que Beto Louco e Primo fizeram viagens ao exterior em jatos operados pela empresa.
Investigação aponta que TAP recebeu pagamentos de esquema de Beto Louco
Voltada para fretamentos de jatos executivos, a TAP é administrada pelo empresário Epaminondas Chenu Madeira. De acordo com o ex-funcionário da empresa, Mauro Mattosinho, a empresa tem sociedade oculta na compra de jatos com Beto Louco e Primo, e também com Antonio Rueda.
Documentos da Operação Tank mostram que operadores do esquema organizavam pagamentos feitos a Beto Louco em planilhas nomeadas como “Retiradas Beto”. Entre as transferências encontram-se pagamentos a TAP, a exemplo de uma transação feita no valor de R$ 13 mil, realizada no dia 29 de março de 2021.
“Nas planilhas “Retiradas Beto Março21” (Roberto Augusto Leme da Silva) podem ser observadas retiradas de altos valores em nome de pessoas jurídicas e físicas, destacando-se Pro Prime,Spexx, Multiplo Serv Adm e Taxi Aereo Piracicaba”, afirmam os investigadores da Polícia Federal.
fONTE: icl

