
A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) compartilhou com a CPI dos Atos Golpistas, que investiga os ataques de 8 de janeiro, 11 relatórios de inteligência que descrevem as diversas frentes de organização da invasão dos prédios dos Três Poderes.
A TV Globo teve acesso à integra dos 11 documentos, entregues à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista em 21 de junho, que são um roteiro da tentativa de golpe.
Nos relatórios, o órgão rastreia os suspeitos de financiar e divulgar os atos, além de indicar como eles se organizaram por meio das redes sociais e o plano orquestrado de ataque a torres de energia e sistemas de controle.
1. Empresários que contrataram ônibus fretados para transportar os golpistas
A Abin identificou 83 pessoas e 13 organizações que contrataram 103 ônibus fretados com objetivo de transportar para Brasília 3.875 pessoas, todas já identificadas. De acordo com o mapeamento feito pela agência, a grande maioria dos contratantes é da região Sul e Sudeste.
Apesar disso, “é provável que diversos contratantes tenham sido utilizados como ‘laranjas’ com objetivo de ocultar os verdadeiros financiadores das caravanas e dos manifestantes”.
Entre os financiadores identificados está Pedro Luis Kurunczi, empresário do ramo de engenharia de Londrina (PR), que seria responsável por locar quatro ônibus que foram a Brasília transportando 153 pessoas.
Outro identificado foi Marcelo Panho, de Foz do Iguaçu (PR), que locou dois ônibus para transportar 73 pessoas. Ambos foram alvos da operação Lesa Pátria, da Polícia Federal, em fevereiro.
2. Envolvimento de empresários do garimpo no financiamento dos atos golpistas
A partir da análise de máquinas usadas no garimpo ilegal no Pará, foi rastreada uma rede de empresários que financiou manifestações contrárias ao resultado das eleições.
O relatório destaca que os empresários Roberto Katsuda e Enric Lauriano estão diretamente associados à prática do garimpo e possuem relação com políticos da região.
Segundo o documento, Lauriano financiou manifestações no Pará e em Brasília e esteve presente nos atos golpistas de 8 de janeiro.
A agência classifica Katsuda como “notório defensor de garimpos em áreas protegidas e visto como um dos maiores articuladores políticos” do tema.
Oito retroescavadeiras identificadas eram usadas em atividades ilegais dentro das Terras Indígenas Kayapó e Trincheira-Bacajá, no sudeste do Pará.
Três equipamentos apresentavam como última proprietária a empresa BMC Máquinas, Equipamentos Pesados, Engenharia e Locações, administrada por Felipe Sica Soares Cavalieri, com sede em Itatiaia (RJ). Outras quatro retroescavadeiras eram dessa empresa, mas foram revendidas.
A filial da BMC em Itaituba (PA) é administrada pela filha de Roberto Katsuda e é o principal ponto logístico para o garimpo na bacia do Rio Tapajós.
Katsuda “financia a estrutura do lobby garimpeiro do vereador Wescley Tomaz”. Pelo documento, os dois fazem parte da comissão pró-garimpo junto com Fernando Brandão, dono de um escritório de advocacia, e Guilherme Aggens, engenheiro florestal da Geoconsult Pará.
Desde 2018, o grupo realizou diversas reuniões com parlamentares e ministros em Brasília, inclusive com a participação de Bolsonaro, para liberação do garimpo em Unidades de Conservação e Terras Indígenas.
Devido à influência desses empresários, foi proposto o projeto de lei (PL) 191/2020, que busca regulamentar o garimpo em terras indígenas.
3. Empresas transportadoras que deram suporte às ações violentas
O relatório identificou 272 caminhões que integraram comboios para Brasília a partir de 4 de novembro de 2022. A grande maioria está registrada nos seguintes estados: Mato Grosso (136), Goiás (46), Bahia (46) e Paraná (26).
Dos 272 veículos, 132 caminhões estão registrados em nomes de empresas, o que, de acordo com a Abin, representa envolvimento de grupos empresariais no financiamento ao acampamento no QG do Exército.
Os demais veículos, 140, estão em nome de pessoas físicas. Mas não pertenciam a caminhoneiros autônomos. Os proprietários são sócios em empresas de médio porte do setor agropecuário.
“A idade dos caminhões reforça o indício de envolvimento de grupos empresariais. Veículos de caminhoneiros autônomos têm, em média, 18 anos de uso. No entanto, aproximadamente 65% dos caminhões presentes nos comboios são novos e seminovos (ano modelo a partir de 2019). Somente 18 dos 272 caminhões analisados (6%) têm 18 anos ou mais.”
O documento traz as principais rotas percorridas até Brasília e os nomes das companhias envolvidas. A empresa com mais caminhões (10) é a Sipal Indústria e Comércio, de Paranaguá, no Paraná. O faturamento estimado do negócio em 2021 foi de R$ 250 milhões.
4. Ameaças de novas ações violentas como identificação de explosivos em locais públicos e sabotagem de sistemas de controle industriais
A Abin avaliou que o formato dos ataques poderia mudar após o 8 de janeiro. Em vez de manifestações, havia maior risco de atos de vandalismo, sabotagem e ataques a sistemas de controle, como, por exemplo, os de distribuição de energia, gás e gasolina.
A agência relatou, no fim de janeiro, que permanecia “o risco de mobilização violenta de atores isolados ou pequenas células” e de “ameaças por indivíduos radicalizados que não foram localizados e detidos”.
Em 10 de janeiro, uma mochila foi encontrada em um viaduto de Feira de Santana (BA) com quatro artefatos que poderiam ser explosivos conectados a uma placa eletrônica.
No dia seguinte, foi encontrado um explosivo próximo à Rodoviária do Plano Piloto, em Brasília, que foi retirado pela polícia.
“Há tendência de formação de agrupamentos menores, mais fechados e formados por indivíduos radicalizados com maior propensão à ação violenta, e de mudança do modus operandi, passando de ações ostensivas, como bloqueios e manifestações, para atos de vandalismo, sabotagem e ataques contra ICs [sistemas de controle]”, diz o relatório.
Este documento cita ainda que “Ramiro dos Caminhoneiros”, liderança da categoria que fez convocações para os ataques, seguia enviando mensagens chamando os grupos para novos protestos.
5. Ataques a torres de linhas de transmissão de energia com objetivo de causar prejuízo no abastecimento
O relatório lista nove tentativas de sabotagem a torres de linhas de transmissão que possuem “relevância estratégica para a matriz energética nacional”:
- Dia 14 de janeiro, foram detectados danos a estruturas das torres das linhas de transmissão da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf). A companhia avaliou o ataque como de “alto risco” porque a queda de uma dessas torres causaria prejuízo ao abastecimento de energia na região.
- Em 28 de dezembro de 2022, houve tentativa de derrubar uma torre em Loreto (MA). Dois botijões de gás foram encontrados no local pela equipe da Eletronorte prontos para explodir.
- Em duas cidades de Rondônia, Cujubim e Rolim de Moura, cabos de sustentação das torres de transmissão foram intencionalmente rompidos em 8 de janeiro. Depois, em 14 de janeiro, houve a queda de uma torre em Pimenta Bueno, com indícios de vandalismo e sabotagem.
- Em Medianeira (PR), houve queda de uma torre e danos em três torres próximas a ela no dia 9 de janeiro. No dia 16 do mesmo mês, peças de sustentação da torre em Cascavel foram roubadas.
- Em São Paulo, foram retiradas da torre de Rio das Pedras diversas peças de sustentação da sua estrutura no dia 12 de janeiro.
- Em Cuiabá, no Mato Grosso, a Eletronorte identificou que parafusos foram removidos da parte inferior da torre.
6. Influenciador digital que participava de grupos extremistas em aplicativo com convocações para os atos golpistas
A Abin apresenta informações a respeito de um extremista radical, de 24 anos, que propunha a resistência civil contra o Estado brasileiro, no contexto do governo Lula.
O jovem se manifestava em listas no Telegram. Ele é membro de 119 grupos do aplicativo. As conversas incitavam novas ações violentas, depois do 8 de janeiro, e tratavam da criação de grupos paramilitares.
O extremista declarou que estava estruturando um grupo paramilitar no estado do Rio de Janeiro, que teria integrantes da polícia, para “prover treinamento e armamento aos demais membros”.
Ele defendia criar células de “autodefesa” por todo o país para defender os interesses da extrema-direita, assim como foi feito na Ucrânia, em 2014.
“Além de trocarmos informações, devemos buscar nos organizar em células de autodefesa locais, porque a partir do momento que eles dominaram tudo, seus ‘coletivos’ como na Venezuela, já não teremos muito o que fazer”, afirmou em mensagem no dia 16 de janeiro, em um dos grupos.
7. Participante de atos extremistas que auxiliou bolsonaristas a saírem do DF
Neste relatório, a agência investigou um candidato a deputado distrital em 2022 pelo PTB que organizou campanha on-line e, com os recursos, comprou passagens de ônibus. Os bilhetes eram para bolsonaristas que estavam acampados em frente ao QG do Exército em Brasília voltarem para seus estados.
O jovem de 26 anos tentou invadir a sede da Polícia Federal em dezembro e participou dos ataques de 8 de janeiro. Nas redes sociais, ele repercute notícias falsas referentes às eleições de 2022 e critica a prisão dos vândalos que depredaram os prédios dos Três Poderes.
Ele recebeu R$ 50 mil do partido para disputar as eleições para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, mas não foi eleito.
Fonte: Globo.com

